segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Insônia e sabiás

Acordo às 5h da manhã, completamente sem sono, e, passados alguns minutos, percebo que não estou só. Os sabiás me fazem companhia. Lá de baixo, das lindas árvores da República eles comemoram a primavera. Motivos temos de sobra, eu e eles, para estarmos felizes e até agitados. Depois de um inverno chuvoso, cinza, os dias agora têm mais cores, mais beleza, mais emoção e, com certeza, mais amores. Não há como não se render a esta estação. As flores cobrem as calçadas, as janelas, as árvores. Porto Alegre veste-se de roxo, rosa e amarelo dos pés a cabeça.
Os sabiás, sensíveis a tudo isto, reagem. E desde muito cedo iniciam a sinfonia animada que toma conta de todos os bairros da cidade. Às 4h já é possível ouvi-los, empolgados, cantarolando um repertório tão manjado quanto o do rei Roberto Carlos, mas que emociona do mesmo jeito. 
É claro que para os insones torna-se difícil voltar a dormir. É fechar os olhos e a festa continua. Não basta para a passarinhada cantar de dia. No meio de toda a poluição sonora, como vão ser ouvidos? Durante a madrugada, destacam-se e fazem serenata. Pensando bem,  quem sofre de insônia, deveria sentir-se privilegiado. Não é sempre que se assiste a um espetáculo assim, de graça, ao vivo e sem sair da cama!! Melhor então eu ir dormir logo. Quem sabe dou sorte de perder o sono e festejar com meus companheiros sabiás a maravilhosa primavera gaúcha...

domingo, 4 de setembro de 2011

Vou de táxi-lotação?

        O porto-alegrense adora uma lotação. Está incorporada à paisagem e às tarefas do cotidiano.   Vale dizer, para quem não está familiarizado, que a lotação é o nosso micro-ônibus ou a nossa van (legalizada, cara e chique), bem diferente daquelas versões cariocas, paulistas e pernambucanas.
         É o táxi da classe média da capital gaúcha. Normalmente, seus trajetos são menos inteligentes do que os percorridos pelos ônibus, além de a viagem ser mais demorada porque não há um corredor específico para lotações. A vantagem, para o passageiro, é o fato de a lotação não ter ponto determinado, o que permite que os passageiros sejam deixados “na porta”. Seja o destino no meio da quadra, passando o semáforo recém aberto ou em fila dupla, o porto-alegrense desce tranquilamente, sem dar a mínima para a bagunça que o veículo causa a todo o trânsito que vem atrás.  
     Talvez por ser motorista, eu tenha tão pouca simpatia pela lotação. Já fui frequentadora em meus tempos de patricinha recém iniciante na UFRGS. E como este tipo de menina mimada não vinga em universidade pública, preferi encarar a realidade do Campus Ipiranga e continuo no ônibus, carro ou táxi até hoje.  Mas como todo preconceito precisa em algum momento ser quebrado, voltei a utilizar a lotação, pois só ela faz um de meus trajetos obrigatórios semanais.
       O retorno até nem foi ruim, mas serviu pra constatar que esta preferência dos moradores de Porto Alegre não faz parte das minhas, principalmente porque destoo do mundo dos passageiros deste meio de transporte. Não aproveito a mordomia de ser deixada “na porta” – jamais peço para o motorista parar onde possa perturbar o tráfego – e não uso laquê suficiente para ter o penteado impecável de algumas companheiras de viagem. Talvez me falte incorporar um pouco de atitudes burguesas no que se refere ao transporte. Nesse quesito sou socialista demais e prefiro o balanço dos ônibus e suas regras coletivas. 

sábado, 2 de julho de 2011

Congelando o pensamento

   A gente que escreve tem muitas ideias na cabeça, às vezes tantas que não consegue formulá-las e transformar num bom texto. Costumamos também ser exigentes com o resultado, e,  assim, muito assunto iniciado nunca se completa e nem mesmo vira texto. Vai direto pra lixeira.
    Quem gosta de escrever, normalmente tem o senso crítico aguçado para o que se passa a sua volta. Se for jornalista então, tem curiosidade, muita opinião e até palpites – uma avalanche de pensamentos sobre o poste de luz, o lixo nas esquinas, a saída de incêndio do seu local de trabalho (esta fundamental para nós na Siqueira Campos nº 1300), os resultados do campeonato brasileiro.
Com isso tudo martelando o seu cérebro o dia inteiro, principalmente quando não sobra tempo pra escrever sobre assuntos casuais, a confusão mental toma conta. Nestes momentos, que não são muito raros, o texto não sai. O meu talvez tenha ficado congelado nestes dias frios que tanto abomino. Não teve vinho que me salvasse e, por isso estou tentando voltar agora.
    O bom foi que voltei a tempo de ser solidária com o Renatinho. Ele teve a sorte de voltar pro Rio antes da próxima geada! Eu que não sou sua fã, fiquei foi com inveja! Por mais que não goste do Portaluppi, acho que ele está merecendo relaxar depois dessa puxada de tapete do Grêmio. Fugir do frio é sempre bom pra gaúchos cariocas como nós. Tenho certeza que em poucas horas naquele calorzinho, naquela paisagem, minhas ideias se coordenariam novamente. 

domingo, 12 de junho de 2011

Celebre o amor

     Passar o Dia dos Namorados sozinho é uma tarefa difícil. Fora o apelo da mídia e do comércio, há os preparativos dos amigos e colegas. Neste ano, até na minha academia fizeram aulas especiais para casais. Em meio a todo este clima de romance, só resta para quem está solteiro encarar o romance de outra forma e celebrar o amor.
      Parece estranho, mas garanto que mal comecei a beber o vinho chileno que comprei para brindar comigo mesma este sentimento tão forte que é o amor. Primeiro, o amor por mim mesma, pelo que sou, pelo que faço e pelo amor que distribuo todos os dias com sorrisos, carinhos e respeito ao outro. Todos nós, estejamos solteiros, separados ou viúvos no dia de hoje, temos um amor que merece ser lembrado, um amor do qual vale a pena ter saudade, um amor platônico, um amor eterno.
       Alguns têm a felicidade de conhecer o seu grande amor desde sempre e passar a vida toda ao lado dele. Outros, entres os quais me incluo, conhecem pessoas especiais, outras nem tão importantes assim e algumas que teria sido melhor não conhecer.  Para estes,  a vida reservou a oportunidade de acumular amores.
     Vai dizer que você não tem guardadinho aí no peito esquerdo a lembrança daquela pessoa que ama muito, mas cujas circunstâncias acabaram afastando-os. Se for este o caso, aproveite o dia dos namorados e comemore o fato de ter vivido este ou estes amores, não importa quanto tempo tenha se passado. Amor deve ser celebrado sempre, nem que seja fazendo um brinde solitário aos momentos compartilhados no passado e que serão eternos para quem teve a sorte de desfrutá-los intensamente.  

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Salto alto

Salto alto. Peça obrigatória no guarda-roupa feminino. O salto levanta o astral, melhora a postura, valoriza as pernas e arrebita o bumbum.  Até o olhar da mulher muda do alto de um salto. Porém, existem alguns lugares que não combinam com salto alto, não tem jeito. Apesar de muitas tentativas inovadoras da moda, na praia, na piscina e nos esportes o salto não cai bem. Em campo de futebol, então,  o salto alto costuma causar tropeços. Não só para a mulherada que vai ao estádio, mas principalmente para os times que entram em campo usando um salto invisível nas chuteiras de seus jogadores.
                Jogar uma final ou um jogo mata-mata calçando um saltinho que seja pode ser um desastre. O Inter usou salto após o primeiro gol do jogo contra o Peñarol no Beira-Rio e deu no que deu. Quando o salto começou a entortar, não tinha mais como voltar ao prumo. Sim, salto alto exige mais que equilíbrio, é preciso ter categoria para usá-lo.
Categoria, isso foi o que faltou ao Grêmio. Passou a semana subindo no salto, no domingo já calçava um salto 15 quando entrou em campo. E pior, além dos jogadores, a torcida toda subiu no salto, sem falar no treinador que tem na soberba uma das principais características de sua personalidade. Vestir o salto pra ele, foi apenas um pequeno detalhe a mais na sua arrogância.

Do lado do Inter, depois de terem quebrado o salto na Libertadores e de sofrerem duras críticas, Falcão e os jogadores foram em busca da superação. Entraram no Olímpico como guerreiros e, por mais que do outro lado do campo estivessem jogadores aguerridos empurrados por sua torcida, os colorados continuaram lutando até o fim, até que todos tricolores descessem do salto num tombo que não se via há muitos anos por lá.
Falcão um dos homens mais elegantes e humildes do futebol brasileiro, foi o grande responsável por tudo isso. Foi ele quem disse aos jogadores que era possível ganhar com vantagem no Olímpico e, por que não, ser campeão na casa do adversário. Falcão entende de salto alto. Morou na Itália, terra de moda e beleza feminina, mas o que vale mesmo é o seu pé no chão. Coisa que Renato Gaúcho nunca teve. E se usa luva com temperatura de 18º C, o pé frio está coberto com meia de lã, num sapato de salto 20.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dani Sobral: O que ainda resta cercar?

Dani Sobral: O que ainda resta cercar?: "O cercamento dos parques volta mais uma vez a ser assunto em Porto Alegre. Uma discussão que expõe as fragilidades características dos grand..."

O que ainda resta cercar?

O cercamento dos parques volta mais uma vez a ser assunto em Porto Alegre. Uma discussão que expõe as fragilidades características dos grandes centros urbanos e suscita as mais diversas opiniões, mas que, inevitavelmente, faz pensar sobre o que realmente precisa ser valorizado na sociedade moderna.
Parque da Redenção. Talvez não exista nome mais apropriado para um parque em um grande centro urbano. Ou que outro nome, por si só, traria à mente resgate, libertação?   E, esta é a principal função de um parque em meio à selva de pedra. Trazer de volta um pouco de vida, de cor aos dias de seus cidadãos e cidadãs. Aquele conjunto de verde misturado à paisagem de grandes avenidas, com seus, carros, ônibus, poluição, prédios cinzentos é capaz de resgatar a vitalidade e o entusiasmo. Como imaginar todo este alento cercado, como que afastando da população de Porto Alegre o pouco que ainda resta de vida? 
Seja na Redenção, no Parcão ou no Marinha, parque público é sinônimo de espaço democrático, compartilhado por todas as pessoas, independente de sua classe social, raça, idade. Afinal, público é, originalmente, um local comum a todos, um lugar do povo.
Cercar um parque é provocar um isolamento, uma separação, apartá-lo justamente de quem mais necessita desse espaço: os cidadãos e cidadãs que ali se refugiam nas suas horas vagas, que saem de suas residências totalmente cercadas para encontrar liberdade, respirar mais fundo e manter vivo o seu direito de ir e vir.
Em meio a tantas grades, a tanto isolamento a que as pessoas estão submetidas nas grandes cidades, será que se faz necessária mais uma forma de exclusão, justamente nos locais que fornecem um pouco de fôlego, de ânimo e que permitem libertação das amarras impostas pelo mundo de hoje?